Poucas coisas conseguem irritar tanto os nordestinos quanto as imitações artificiais e caricatas de seu sotaque, frequentemente reproduzidas por veículos de mídia do Sudeste e de outras regiões do país.
Ariano Suassuna foi um notável crítico dessa prática. Em diversas entrevistas, como sua participação no programa Roda Viva, repudiou o que chamava de sotaque “miado”, “chiado” ou “de aeroporto”, afirmando nunca ter ouvido ninguém falar daquela maneira no Nordeste.
Segundo o escritor, a linguagem popular deveria ser representada com respeito e autenticidade, sendo recriada com dignidade, sem recorrer a estereótipos que distorçam a diversidade e a riqueza cultural da região.
O clássico absoluto O Auto da Compadecida, baseado na obra de Ariano Suassuna e considerado por muitos um dos melhores – senão o melhor – filmes nacionais, contava em seu elenco principal com diversos atores de outras regiões do país. Uma das marcas do filme foi simplesmente a opção de não utilizar sotaques regionais.
Mesmo entre os nordestinos do elenco, não havia paraibanos e, como sabemos, no Nordeste não existe apenas um sotaque, mas sim uma multiplicidade de falares e identidades.
A escolha resultou tanto em críticas quanto em elogios. No entanto, Ariano não era contra os atores “imitarem” os sotaques nordestinos em si, mas sim contra a forma caricata e estereotipada como isso geralmente era feito na mídia.
Mas e se houvesse diretrizes linguísticas realmente científicas para o teatro, o cinema e a televisão? Querendo ou não, o sotaque pode proporcionar uma maior imersão na fantasia/trama. Então, o maior problema não seria a utilização dos dialetos em si, e sim a falta de ferramentas adequadas para reproduzi-los de forma fidedigna.
É justamente sobre isso que trata o lançamento de Victor Veríssimo, com seu time de colegas linguistas, que reúne um amplo conjunto de estudos linguísticos sobre a riqueza e a complexidade dos falares nordestinos, tratando-os não apenas como uma variante regional, mas sim como patrimônio histórico e cultural.
Afinal, o sotaque é, sim, um patrimônio cultural. Não se trata de “provincianismo” ou de “falar errado”, como vulgarmente se entende. Todos nós temos sotaque: o mineiro, o carioca, o gaúcho, o paraense. Até o paulista tem seu sotaque “caipira” e seus “arcaísmos” típicos do interior, embora o da capital seja tão sotaque quanto – ainda que alguns teimem em negar isso.
A obra oferece um conjunto sólido de ferramentas fundamentadas em estudos científicos, que podem servir de base para produções artísticas ambientadas em diferentes regiões do Nordeste. Além disso, destina-se a pesquisadores, estudantes de Letras e Linguística e a todos os interessados pela língua portuguesa.
Desmistifica ideias comuns como a existência de uma forma “correta” ou única de falar, bem como a noção de que “o nordestino fala cantado” (quando, na realidade, toda fala apresenta entonação, a gente só costuma perceber melhor quando é o “outro”). Aborda ainda aspectos como musicalidade, ritmo, construção frasal, uso do “r” e outros elementos linguísticos.
O estudo ressalta a variedade fonética presente na própria região, além das influências históricas que contribuíram para a sua formação, ao mesmo tempo em que questiona mitos e simplificações comuns. É possível dizer que o livro dialoga com a perspectiva de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, especialmente em ''A Invenção do Nordeste e Outras Artes'', ao abordar questões como xenofobia e homogeneização cultural.
No entanto, enquanto Durval se concentra nas construções históricas e discursivas que produzem estereótipos e homogeneizações sobre o Nordeste, a obra mostra como o chamado “sotaque nordestino” costuma ser percebido por observadores externos como um bloco uniforme. Essa percepção acaba obscurecendo a diversidade dos falares e das identidades linguísticas existentes na região.
Nesse sentido, trata-se de uma leitura recomendável tanto para quem está tendo os primeiros contatos com a Linguística quanto para pesquisadores e profissionais da área. Ao evidenciar a diversidade dos falares nordestinos e questionar estereótipos arraigados, a obra contribui não apenas para o estudo da língua portuguesa, mas também para uma compreensão mais rica da pluralidade cultural brasileira.
